Entrevista com Guilherme Azevedo do Jornalirismo. Como promover informação de forma livre.

19 September 2007
Publicado por: Ricardo Cabianca
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Com base em um tema que o Gilberto Jr., da Prática, iniciou sobre a descentralização da blogosfera versus uma possível institucionalização da mesma, com regras, hierarquia, editorias com limites, etc…acabei entrando na discussão, motivado pela Cris Zimermann, Wagner Fontoura e o Leandro.

O bom disso tudo, que a meu ver é um dos lados positivos do ato de se blogar, é que podemos discutir em público, registrando nossos pensamentos, formando nossa opinião e ajudando os leitores a fazer o mesmo. É claro que seria muito bom se os leitores participassem ativamente, afinal, é para eles que dedicamos este espaço aqui.

Para completar, acabei descobrindo o site chamado Jornalirismo, que usei como exemplo de uma boa descentralização organizada. Entrei em contato com os profissionais de lá e os convidei para uma entrevista. Não, não sou jornalista, sou publicitário de formação acadêmica mas me apresento como profissional de comunicação e marketing, por conta da formação prática, mas em sendo do meio “comunicação” me senti a vontade para mandar algumas perguntas para eles.

Guilherme AzevedoO Guilherme Azevedo, profissional com longa estrada percorrida, acumulando experiência e reconhecimento, foi muito gentil e atendeu prontamente a minha solicitação. E ele tem mesmo experiência, pois é jornalista formado por uma das melhores faculdades (tem ainda diploma de Letras e Ciências Humanas) do país, atualmente é redator da Agência Click, já passou pelo Estadão, revista Caros Amigos e é autor de 4 livros.

Meu objetivo era conhecer por dentro o Jornalirismo e se o conceito de uma descentralização organizada cabia naquela iniciativa. E para minha não surpresa, é assim mesmo que o site é gerido. Tem no Guilherme um gestor que organiza como as informações chegam até o leitor do site, mas os participantes são livres para escrever, claro, dentro do único limite possível: o conhecimento acerca do assunto tratado.

E mais, o Guilherme dá mesmo algumas dicas importantes para quem quer levar o ato de blogar, ou seja, fazer seu conhecimento ser socializado e ser feliz com isso. Aproveitem! E vejam como é possível ter uma descentralização organizada!

1. O que estava incomodando quando surgiu a idéia de criar o Jornalirismo?
Na verdade, Ricardo, o incômodo já é antigo. Sou jornalista profissional desde 1995, formado pela Faculdade Cásper Líbero, de São Paulo. Comecei minha carreira no Grupo Folha, onde ingressei como trainee, em março de 1996. O que acabei encontrando ali, numa grande empresa jornalística, foi algo muito diferente daquilo em que sempre acreditei que o jornalismo é: uma forma de aproximação e identificação das pessoas e instrumento de transformação. O espaço para a criação sempre foi muito restrito, o discurso da pseudo-objetividade prevalecia. As reportagens? Mais uma colagem de outros textos, de apurações feitas sem conhecer o entrevistado, feitas afoitamente por telefone, sem ir para a rua. A liberdade editorial? Praticamente nenhuma, quase apenas a liberdade do dono e do editor do jornal. Além disso, o jornalismo que encontrei era muito diferente da realidade da maioria da população. Na verdade, até se posicionava contra ela, contra movimentos sociais legítimos, como o dos sem-terra e o dos sem-teto. As pautas, isto é, os assuntos de reportagens sempre disseram mais respeito a um grupo já privilegiado da população. O jornalismo, assim, era uma forma contínua de insatisfação e tristeza para mim e para meus colegas. O site Jornalirismo, criado em janeiro deste ano, é uma tentativa de uma imprensa livre, não queremos fazer conchavo, não queremos tergiversar. A gente quer comunicar para transformar. É difícil? É. Mas, se abrisse mão do idealismo e de um compromisso com a mudança, eu arrumaria mais um espaço de frustração na minha vida. E o Jornalirismo a gente faz sorrindo, com alegria, com vontade redobrada de fazer bem-feito.

2. Vocês encaram o Jornalirismo como um blog?
O Jornalirismo tem o espírito blogueiro, isto é, irreverente. Mas procura avançar um pouco esse posicionamento, sem desmerecer nenhum blog, sou leitor e fã de muitos deles. O Jornalirismo se “apropriou” da estrutura do blog, com a inserção dinâmica de posts e espaço para comentários, como uma forma de novo jornalismo, de jornalismo cidadão, mais democrático. O leitor pode participar do processo de produção da notícia. A reportagem que faço não se esgota em si mesma. Um comentário pode avançar o assunto, trazer uma opinião diferente, complementar. E pode mesmo corrigir alguma informação equivocada. Essa é a nova forma de comunicação, aquela que não fala para si, mas que busca essencialmente uma forma de diálogo com o leitor. Acho que é muito melhor, mais respeitoso, honesto e correto.

3. Como se deu a escolha dos participantes?
A escolha dos participantes se deu, principalmente, por uma afinidade de pensamento, de visão de mundo, embora tenhamos muitas diferenças entre nós. E é bom que tenhamos diferenças também, não queremos um pensamento único. Mas temos todos uma vontade muito grande de fazer bem-feito, de produzir um conteúdo cuja marca seja a honestidade e a criatividade, que estimule o debate livre de idéias. Também não somos donos de verdade alguma. Temos muito mais perguntas que respostas. E tenho a certeza de que muito mais gente boa ainda está por chegar. As portas estão abertas.

4. Existe alguma regra sobre o que escrever, como escrever e a freqüência para se publicar um texto?
Existe, sim. No Jornalirismo, cada um dos jornaliristas acabou assumindo para si a tarefa de falar sobre o assunto de sua especialidade. Temos o compromisso com a profundidade, então cada um precisa escrever sobre sua área de conhecimento específico. A gente quer fazer jornalismo que faça sentido para o leitor, que ele aprenda com o que lê, que, de alguma forma, o que a gente produza faça diferença na vida dele. Se alguém, depois de ler um de nossos textos, sorrir ao final, “Puxa, que legal!”, ficaremos muito felizes e satisfeitos. Um texto, para ir ao ar, precisa estar absolutamente bem escrito. Claro que nós também temos falhas, temos limitações, mas colocamos nossas metas num patamar bem elevado. O Jornalirismo conta também com um profissional que organiza todo o material. É ele – no caso, eu – que coloca no ar todo o material, corrige, escreve as manchetes do site, a primeira página. Acho que todo mundo publicando ao mesmo tempo, sem ninguém para organizar, gera distorção e confusão para o leitor. Esse é o modelo que temos seguido, não necessariamente o melhor. Cada um pode inventar uma nova maneira de editar seu material. No jornalismo em que acredito, a velocidade não pode colocar a profundidade em segundo plano. Escrever quarenta posts por dia pode dar certo ibope, mas será que corresponde a um nível esperado de qualidade? Acho que o leitor precisa de textos bons, de informações boas, contextualizadas, que façam sentido, que tenham credibilidade. Não uma competição de quem posta mais e mais rápido. Isso é prestar um desserviço, e até a subutilização da mídia Internet, que nos fornece tantos recursos para aprofundar um tema: não há limite de espaço; permite a convergência de mídia, o uso simultâneo de texto, áudio e vídeo. Também acho que há um excesso de opinião, de comentário e um número reduzido de reportagem, de gente que se dispõe a ir até a notícia.

5. Vocês enxergam um blog como uma ferramenta de comunicação e relacionamento?
Claro que sim. Totalmente. O blog é um instrumento fantástico de comunicação e proximidade com seu público. Mas precisa ter relevância, ter conteúdo bom, ter credibilidade. O blog é uma forma extremamente democrática de comunicação, pois colocou na mão de milhões uma possibilidade de comunicação antes restrita a grandes grupos de comunicação. O blog faz parte de um contexto muito mais democrático de produção e emissão da notícia. Ave, blog!

6. Tem outros objetivos com o Jornalirismo, que não seja apenas um canal para expressar a visão dos editores sobre o mundo da comunicação?
Ricardo, o Jornalirismo é um sonho lindo que virou uma realidade linda. Às vezes me pego pensando: “Olha o que está acontecendo!…”. É meu gasta-pão, mas que satisfação que dá. É uma felicidade única. Claro que tenho a pretensão de, um dia, me dedicar exclusivamente ao Jornalirismo, coisa que não posso fazer hoje, que ele dê retorno financeiro. E acredito em que um dia vai dar. Estamos fazendo um trabalho de que nos orgulhamos, sabemos que estamos no caminho certo. Nosso maior bem, graças a Deus, é a credibilidade que conquistamos. E a credibilidade, para qualquer profissional ou empresa, é seu maior patrimônio. Eu tenho a consciência tranqüila. Confio no trabalho, no projeto mais do que em qualquer outra coisa. A gente sabe quando dá o seu melhor. Amo o que eu faço.

7. Deixe alguma opinião livre sobre o caminho da internet brasileira, relacionando o que já passamos, como ela é hoje e como imagina daqui alguns anos.
A Internet, no Brasil e no mundo, está amadurecendo e se profissionalizando. Isso é muito bom; na verdade, fundamental. Sem profissionalismo, não há seriedade. E se não há seriedade, não tem leitor, não tem anunciante, não tem nada. A Internet, como meio, vai crescer muito ainda, e muito rapidamente. No Brasil, por exemplo, uma grande massa, antes excluída, está tomando o caminho digital, graças a Deus. O Brasil tem uma dívida social ainda muito grande, e a Internet pode ser um veículo para acelerar o processo de justiça social. Não acredito em que as outras mídias mais tradicionais deixem de ter relevância, mas, certamente, os grandes jornais, como Estadão e Folha de S.Paulo, e as grandes redes de tevê, como a Globo, perderam muito de sua força. O que é maravilhoso. Quanto mais informação, melhor, principalmente de fontes diferentes das da grande mídia. Mas o grande desafio da Internet ainda é se fixar como mídia séria e relevante. Não podemos ter um grande infocomercial interativo, precisamos de espaços muito bem definidos e separados para o que é propaganda e o que é jornalismo. Na Internet, assim como em outras mídias, essa relação, entre jornalismo e propaganda, continua muito promíscua e perigosa. E isso afeta demasiadamente a confiabilidade do meio. É isso. Ricardo, muito obrigado pelo espaço, pela oportunidade. E muito obrigado ao leitor que nos acompanhou até aqui.

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1 comentário

  1. [...] aqui uma “entrevista” que fiz com ele por email, há quase um ano atrás, quando conheci o site por conta de uma [...]

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